Ponderar em vez de comprar

Não falarei de poupanças, da carteira sempre vazia, do dinheiro que faz falta. Isso é comum, escolhas sem resposta certa, paradoxos de um dia-a-dia que quase todos conhecemos. No final, é sempre armas ou manteiga, o clássico dilema económico onde gastar mais dinheiro num implica que há menos para gastar no outro. Mas como eu disse, não falarei de preços, promoções ou balanças. Este texto é sobre ponderação ou, simplificando, apenas sobre a palavra não. 

Namorar lojas é uma espécie de desporto. Passeia-se só por passear. Aproveitar a brisa, pôr a conversa em dia. Mas quando as montras aparecem, os diálogos mudam de tom e as mãos ocupam-se com tecidos e vestidos, camisolas e sacolas. Tudo é bonito e cai bem. 10 segundos e estamos em êxtase numa fila de espera.  Aquele foi certamente o melhor acontecimento do dia. 


 C A L M A


Não há oportunidades únicas e promoções imperdíveis. O mundo não parará de rodar se um casaco esgotar. Por vezes é difícil lembrarmo-nos disto no meio do turbilhão de compras e do entusiasmo que sentimos ao adquirir algo novo e diferente. É uma armadilha onde é fácil cair, mas não passa disso, uma pequena armadilha. Se cada segundo de pressa e de espontaneidade no momento de comprar for substituído por 24 horas de ponderação estamos a ofereceres-nos tempo para pensar. E isso acaba por ser a melhor coisa com que poderíamos chegar a casa. Incontáveis vezes, encontrei-me no mesmo cenário. Um vestido bonito, algo que tinha de ser meu, uma camisola que não podia deixar na loja. Mas depois eu espero. Espero pela calma, por chegar a casa, por conversas. Eu durmo com a mente noutras coisas, acordo a pensar nas tarefas do dia. Preparo o almoço e o jantar. Passeio pelo parque, nado no rio, esqueço aquilo que, ainda ontem, era essencial para mim. Mas depois existe o  efeito contrário, aquele que devemos ouvir. A camisola preta que faz falta todas as manhãs. A camisola preta, com a sua gola alta, que aqueceria o meu pescoço nos dias frios. A camisola preta de gola alta e corte cintado que ficaria bem por dentro da saia. Estes são os apelos consumistas a que eu dou ouvidos, aqueles que surgem quando estou em casa, aqueles cuja falta se sente de estação para estação, aqueles que a última moda não derrotou.

Ser ou não ser. Comprar ou não comprar. Dois verbos cada vez mais complementares. Eu compro logo sou. Tu és porque compras. Esperar, pensar e ponderar é apenas dar a voz ao verbo ser, antes de nos precipitarmos a pronunciar a palavra comprar.


6 comentários:

  1. verdade.nao ao ato de comprar pir impulso!
    é uma luta continua não comprar

    Mundominimalistablog.wordpress.com.br

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  2. Sinto o mesmo. Agora mantenho-me longe das lojas e só compro o que sinto que realmente me faz falta. A leveza...
    Bjs.

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